Cruzada contra adoçantes carece de evidência; diminuí-los na dieta pode ser vantajoso, porém

Por Gabriel Alves

Você, de repente, pode ter tropeçado por aí em alguma reportagem ou post nas redes sociais sobre um novo artigo científico da revista “Cell Metabolism” que mostra uma possível sinalização do cérebro pela qual a ingestão de adoçantes, mais especificamente a sucralose, teria uma função orexígena, isto é, faria aumentar a fome e, consequentemente, a ingestão calórica.

Chega a ser curioso: ao tentar emagrecer ou controlar a glicemia estaríamos armando uma arapuca para nós mesmos. É mais complexo do que isso. Em humanos, a decisão de comer ou não é processada mentalmente e, de fato, “escolhida”. Por mais fissura que se tenha, ninguém come um bolo de chocolate inconscientemente.

Como quase tudo que se vê por aí, o estudo foi feito em animais (não seria ético forçar pessoas a comerem algo que possivelmente faz mal, certo?). Quando se pensa em humanos, porém, a questão ganha nuances complicadas de se considerar ou analisar. Se fossem roedores, já seria uma extrapolação exagerada –agora, em moscas?

(Moscas são organismos-modelos intensamente utilizados na área de genética e evolução. Em outras áreas são mais comuns os vermezinhos C. elegans e, em outras, coelhos, ratos e camundongos, por exemplo.)

Não dá para pegar um único estudo catequizar o mundo como se aquelas páginas fossem novas inscrições na Tábua de Moisés –“não ingerirás adoçantes”. O mundo e a ciência são gratos pela revelação da possibilidade, mas isso não implica uma mudança compulsória dos hábitos alimentares. O nível de evidência [grau de confiabilidade acerca de uma proposição] é muito baixo para isso.

Não é à toa que não há veto de agências regulatórias como FDA (EUA) e Anvisa (Brasil) a esse tipo de substância.

Um outro estudo marcante foi aquele publicado em 2006 pela revista “Environmental Health Perspectives”, que alimentou alguns milhares de bichos com doses crescentes de aspartame e observou um maior risco para o desenvolvimento de tumores no trato urinário e de linfomas associado ao aumento da ingestão do adoçante.

Como quase tudo que nos é ofertado nessa vida, provavelmente há mal no excesso das substâncias na dieta. Não penso, no entanto, que a saída é evitá-las a todo custo.

PROPOSTA

Imagino que ninguém faça uso do aspartame pelo sabor, ao contrário: sabidamente muitos fogem de alimentos light por causa do gostinho residual ruim. Na conta dos que têm de usá-los estão pessoas com diabetes ou em dieta, que precisam reduzir a ingestão de açúcares.

Considerando a atual tendência nutricional antiaçúcar, não dá para simplesmente tirar os adoçantes de cena. O que é possível, claro, é um consumo racional.

É possível acostumar o paladar a cada vez menos adoçantes ou açúcar, principalmente em bebidas como café e sucos. As vezes, a versão “crua”, sem nenhum dos dois, pode ser prazerosa.

Se não dá para abrir mão daquele docinho light ou refrigerante zero durante/depois do almoço, é possível reduzir a quantidade e evitar a possível sobrecarga de adoçantes no organismo.

Estamos no ramo da especulação, mas veja: se não existem dados o suficiente para sustentar a tese de que os adoçantes fazem mal, não há nenhum dizendo que eles são benéficos. Reduzir quantidade em nossas vidas não acarretaria nenhum mal e, quem sabe, se os estudos citados acima estiverem apontando na direção correta, traria até benefícios.

Provavelmente o mesmo raciocínio de redução no consumo vale para o açúcar, contra o qual se empilham evidências de que ele é, de fato, um dos vilões da alimentação moderna.


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