Paciente inconsciente com tatuagem escrito ‘NÃO ressuscitar’ intriga médicos e gera discussão ética

Por Gabriel Alves

Aconteceu nos EUA e o relato está em uma carta enviada por médicos e pesquisadores da Universidade de Miami à revista “New England Journal of Medicine”: um paciente de 70 anos foi levado para o hospital inconsciente após ter bebido demais. Ele tinha histórico de diabetes, doença pulmonar e arritmia. Até aí, nada tão fora do ordinário.

Durante a recuperação, ele teve uma piora grave. Seu sangue estava muito ácido e sua pressão estava baixando –sem uma rápida intervenção, ele poderia morrer.

A questão é que ele tinha uma tatuagem no peito na qual se lia: “Do Not Resuscitate”, com “Not” sublinhado. (traduz-se como “Não Ressuscitar”, em português). Logo abaixo, a possível assinatura do paciente.

O paciente não foi identificado e nenhum membro da família o acompanhava.

“Nós inicialmente decidimos não cumprir com o desejo expresso na tatuagem, invocando o princípio de não escolher um caminho irreversível ao lidar com a incerteza”,  escreveram os autores na carta.

“Essa decisão nos deixou consternados, já que, nesse caso, poderíamos estar ignorando um tremendo esforço do paciente para tornar pública sua vontade. Por causa disso, foi requerida uma avaliação ética da questão.”

A comissão encarregada de discutir essa questão ética sugeriu que a equipe seguisse a determinação da tatuagem. Seria mais sensato inferir que ali estava expressa uma preferência autêntica. Segundo a carta, os especialistas também argumentaram que nem sempre a legislação é veloz o suficiente para acompanhar e dar suporte aos interesses do paciente.

Por sorte, o serviço social do hospital identificou o paciente e localizou um documento formal, o pedido de não ressuscitação (DNR, na sigla em inglês) do paciente, que era consistente com a tatuagem. Ao longo da noite o estado clínico do paciente piorou de vez e ele morreu sem passar por tentativas de ventilação mecânica ou outras intervenções.

Esse DNR via tatuagem foi avaliado pela equipe da Universidade de Miami como gerador de uma grande confusão –tanto do ponto de vista da legalidade dessa “solicitação” quanto da crença de que uma tatuagem poderia representar decisões das quais a pessoa se arrependeu de ter feito no passado.

Os autores, no fim das contas, não se posicionam a favor ou contra desse tipo de manifestação de como deve ser conduzido o cuidado no fim da vida.

A especialista em bioética Maria Sharmila Alina de Sousa explica que alguns dos princípios em que pensadores da área concentram suas teses é o da autonomia, a não maleficência (ou o primum non nocere hipocrático), a beneficência  e justiça. Ela concorda com a conduta e salienta “notoriedade da novidade com a qual a equipe médica se deparou”.

“Precisamos nos adiantar, como sociedade, e estabelecermos parâmetros de conduta clínica delimitados e fundamentados na evidência global disponível sobre os impactos familiares, socioculturais e político-econômicos para que não haja dúvidas na tomada de decisão sobre quais tipos de cuidados paliativos tais pacientes devam ou não acessar, caso não seja possível contar com informações provenientes de familiares ou do prontuário médico”, diz Sousa, que é pesquisadora da Fiocruz Brasília.

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