Agência dos EUA quer que consumidores parem de ser enganados por remédios homeopáticos

Gabriel Alves

Será o final de uma era? A FTC (Federal Trade Comission), agência dos EUA responsável por proteger os consumidores quer que, naquele país, os medicamentos homeopáticos e afins passem por processos tão rigorosos quanto os medicamentos convencionais antes de serem lançados.

Esses testes incluiriam, idealmente, uma fase pré-clínica (em culturas de células e  em animais) e fases clínicas, com humanos –incluindo ensaios  do tipo duplo-cego, quando nem o paciente nem o clínico que o avalia sabe se o paciente tomou o medicamento testado ou um outro que serve de referência ou ainda um placebo.

Um porém: a aprovação e regulação de medicamentos é função de outra agência, a FDA (Food and Drug Administration). Na prática, o que a FDA fez no passado (que não é muito diferente do que a Anvisa fez por aqui) foi permitir que os medicamentos homeopáticos conquistem sua licença de comercialização com base em “respostas” coerentes com o corpo teórico da disciplina, que se baseia em princípios de séculos atrás e, no mínimo, questionáveis dos pontos de vista físico, químico e biológico.

(Por exemplo, a homeopatia se baseia em conceitos como o de que a água conseguiria manter uma “memória” das moléculas que estavam nela diluídas ou que repetidas diluições –que diminuem a concentração de uma substância tóxica, por exemplo– conseguiriam fazer o medicamento se tornar um tratamento eficaz contra a intoxicação.)

No fim das contas, nos EUA, o remédio homeopático poderá até ser vendido na prateleira da farmácia, mas terá de ter um aviso dizendo que não funciona, de modo a não enganar o consumidor. Talvez o mercado homeopático, de quase US$ 3 bilhões anuais nos EUA, nem seja tão abalado, mas os críticos dessa modalidade de medicina alternativa veem o anúncio da FTC com muitos bons olhos. 

DEFENSORES

Os entusiastas da homeopatia costumam trazer relatos pessoais e de conhecidos como argumento de que a área é legítima.

Para eles, o problema seria usar a “régua” da medicina tradicional, da ciência cartesiana, para medir e quantificar os benefícios da antiga modalidade terapêutica. Em outras palavras, os efeitos suscitados pelo uso de remédios homeopáticos são tão individualizados, complexos ou sutis que passariam despercebidos por testes de eficácia tradicionais, apesar de existirem.

Provavelmente muito dessa percepção de sucesso poderia ser explicada pelo efeito placebo. Vale notar que não existem estudos grandes e sérios que apontem a eficácia suscitada pela terapia com homeopatia. Ao contrário.

Uma grande revisão de 2015 encomendada pelo governo australiano procurou estudos que testassem o efeito da homeopatia sobre uma série de doenças. A conclusão, além daquela de que não existem resultados favoráveis à homeopatia, foi a de que “pessoas que optam pela homeopatia podem colocar suas vidas em risco se eles rejeitarem ou adiarem tratamentos para os quais existe bom nível de evidência para segurança e eficácia”.

Meu palpite, no entanto, é que dificilmente a homeopatia será abalada pelo “choque de realidade” imposto pela FTC ou por quem quer que seja. As pessoas buscam narrativas interessantes para escolher tratamentos que se adequem a seus estilos de vida e a suas convicções. A homeopatia combina com o discurso natureba “contra os químicos”. É o mesmo tipo de pensamento que criou os mais novos “vilões” da saúde: o leite e os alimentos que contém glúten.

Talvez por causa de uma enorme dedicação dos homeopatas e dos pacientes-entusiastas, não se observem sinais de ruína na área: o campo de atuação está  profundamente enraizado nas escolas médicas e nos milhares de consultórios mundo afora.

Fora uns poucos enxeridos, ninguém fala mal de homeopatia. E ninguém parece querer mexer nesse vespeiro. Pelo menos até agora.


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